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Seminário à francesa

 

O encontro entre livreiros e editores reunidos na Biblioteca do Consulado da França, nesta terça, 22,  discutiu a relação entre as duas categorias, a regulação do mercado pela Lei do Preço Fixo e teve o momento mais acalorado  após a fala de Ricardo Garrido, representante da Amazon.

 

Livreiros e editores no segundo evento para o mercado promovido pela Embaixada da França

 

Gerente de conteúdo do Kindle,  Ricardo falou da importância da empresa no Brasil onde, segundo ele, apenas  27,4%  das cidades possuem livrarias. A Amazon, no país há cinco anos, também serve de marketplace para cerca de duas mil livrarias, disse.

Da plateia, no entanto,  a editora Cristina Warth, da Pallas ,  questionou a empresa vender livros que compra dela pelo mesmo valor pago por eles: “a Amazon não ganha nada, a não ser fragilizar o livreiro estabelecido”.

O presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos Pereira, também da plateia, disse que  a Amazon acelera o processo de concentração do mercado e é disruptiva por natureza: “Um preço mais justo é diferente de um preço mais barato”, alertou.

Phillippe Goffe, da Associação Internacional dos Livreiros Francófonos, também  disse, da plateia, que a Amazon quer acabar com a concorrência e então dar ao livro o preço que quiser. Discordou da visão “angelical” que Ricardo passou da empresa lembrando que se ela tem marketplace não precisa de livrarias.

Segundo Goffe os livreiros têm de reagir e serem mais ágeis, mas saudou a presença do representante da Amazon no evento dizendo que os colegas da empresa dele na França não participariam de um debate como esse.

A editora Catia Corção, da Ler Editorial , no entanto, pediu a palavra para defender a Amazon alegando que a empresa compra e paga os livros de sua editora em dia ao contrário de muitas livrarias que usam o sistema de consignação e passam meses sem dar satisfação sobre os livros.

Na França, o sistema de consignação praticamente não existe devido à dificuldades burocráticas e no Brasil, segundo Marcos Pereira,  foi implantando para ajudar as livrarias.

Para Rui Campos, da Livraria da Travessa não é só o sistema de consignação que traz problemas para os editores uma vez que a compra de livros também pode ter atrasos no pagamento. Mas ele admite que a consignação provocou um afastamento entre o livreiro e o editor no Brasil.

Esse, depois do primeiro em 2016, foi o segundo  Seminário sobre mercado livreiro promovido pela Embaixada da França e pelo Escritório Internacional de Editores Franceses, BIEF, com apoio da AELRJ, ANL, CBL, LIBRE e SNEL e se chamou; Olhares cruzados dos profissionais do livro latino americanos e francófonos.

Depois do clima festivo da Ler, Salão Carioca do Livro no fim de semana na Biblioteca Parque Estadual,  o evento na também moderna Biblioteca do Consulado Francês mostrou que por traz dos produtos bem acabados e das histórias de sucesso que cercam o mundo do  livro há  o clima de turbulência nas livrarias e editoras.

Marcos Pereira  disse que a situação de inadimplência de algumas  grandes redes livreiras afeta o mercado como um todo; por não receber delas algumas editoras terão de reduzir em 40% o número de lançamentos o que prejudica o movimento nas livrarias.“Temos de acreditar que temos futuro”, disse  “ mas o futuro depende de fôlego”.

A Lei do Preço Fixo do Livro, em tramitação no  Congresso poderá garantir fôlego a muitas livrarias mas sua aprovação é nebulosa segundo o presidente da Associação Nacional de Livrarias, Bernardo Gurbanov que voltou a defender o Manual de Boas Práticas do Mercado Livreiro.

Ele disse que deve haver respeito aos papéis de cada um dentro do ecossistema do livro e traçou um paralelo com a indústria farmacêutica onde as farmácias intermediam a venda de remédios e esses nunca vão direto dos laboratórios para o consumidor. Para Bernardo, ainda falta conscientizar a sociedade sobre a importância do livro.

A Lei do Preço Fixo já existe em 18 países com algumas variações com relação ao modelo francês que é  o que deverá ser votado no Brasil com desconto máximo de 10% nos lançamentos durante um ano. Na Espanha o desconto é de 5% e o período de dois anos.

Em 2017, lei semelhante a da França foi aprovada na Bélgica e entrou em vigor este ano. Segundo Phillippe Goffe, há 35 anos se lutava por ela  e  houve um trabalho árduo de convencimento dos políticos mas ao final  a lei foi aprovada por unanimidade.

A Comissão responsável por ela tinha representantes de toda a cadeia do livro e foi presidida por um autor, o que lhe retirou o caráter comercial. Mas segundo Goffe, a lei não basta e é necessário diálogo e incentivos por parte do governo: “A lei existe não só para proteger as livrarias mas também o livro e a qualidade editorial”.

Nicholas Roche, diretor do BIEF disse que na França outra grande vitória foi a aprovação da Lei do Preço Fixo para o livro digital em 2011. Mas que tanto esta como a Lei Laing, de 81, são atacadas por todos os lados.

Sobre a importância da Lei para o mercado ele  citou o caso da Inglaterra onde havia  um acordo de cavalheiros em torno do preço único que ao ser rompido em 1987 provocou o fechamento de 50% das livrarias inglesas.

Pierre Myszkowski, também  do BIEF, disse que  na Alemanha, onde também há o preço fixo, o respeito nas relações entre livreiro e editor  é constante, há um acordo de cavalheiros e há um só sindicato que reúne editores e livreiros.

Ao final do evento Katia Corção , da plateia, sugeriu a Marcos Pereira , na mesa de debatedores, que houvesse mais eventos como esse promovido pela Embaixada da França. Ele disse que antes havia, mas que eram chatos sempre sobre o mesmo tema, mas que agora é hora de reavaliar novos encontros entre livreiros e editores.

 

23/05/18